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Luiz Carlos Azedo: O apronto militar




Publicado em 01/11/2015

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NAS ENTRELINHAS

Fosse mesmo uma punição exemplar, o general seria mandado para casa por falar mal do governo, o que todos fazem reservadamente no alto comando

Uma velha estória de caserna que circula no Rio Grande do Sul, responsável pela maior concentração de blindados das Forças Armadas, ironiza os “aprontos operacionais”, que servem para testar a cadeia de comando, a preparação das tropas, a disciplina e o empenho de oficiais e soldados. Segue sempre a mesma rotina: plano de chamada de madrugada, deslocamento para o quartel, preparação de equipamento e horas de espera até aparecerem os oficiais superiores que vão comandar a manobra.

“Munidos de pranchetas, o comandante e seu estado-maior começam a inspeção e verificam o material que falta: vale uma marmita; vale uma faca de trincheira; vale um porta-curativos; etc. As viaturas são representadas com giz, no chão: vale uma VTR 2,5 Ton; vale uma VBR EE-9 Cascavel; e por aí vai.

Um oficial, ao inspecionar um pelotão, interroga um subordinado rispidamente:

— Cadê a caixa de costura, sargento?”

Essa é crítica ao sucateamento do Exército, mas vem a calhar por causa do “apronto” encomendado pelo ministro da Defesa, Aldo Rebelo, para “politizar” a transferência do general Antônio Hamilton Martins Mourão do Comando Militar do Sul para a Secretário de Economia e Finanças do Exército, que não é um posto qualquer, embora não tenha o poder de movimentar o mais poderoso contingente militar do país.

Fosse mesmo uma punição exemplar, o general seria mandado para casa por falar mal do governo, o que, aliás, todos fazem, reservadamente, no alto comando. A mudança já estava prevista para abril do próximo ano, mas Rebelo resolveu enquadrar o militar e demonstrar para a opinião pública quem realmente manda nas Forças Armadas. A saída encontrada foi antecipar salomonicamente as promoções e a movimentação de mais de 40 generais.

Mourão, ironicamente um tocaio de Mourão Filho (o general que deu início ao golpe militar de 1964 descendo com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro), em palestra proferida em 17 de setembro, em Porto Alegre, disse que a saída da presidente Dilma não mudaria o “status quo” do país, mas que a “vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, da má gestão e da corrupção”. Havia 40 anos que um quatro estrelas não comparecia à Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul.

Além disso, permitira homenagens, em uma das unidades sob seu comando, ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe dos serviços de segurança da ditadura, falecido recentemente. Mais um bom motivo para o ministro da Defesa mostrar aos saudosistas do regime militar quem manda e quem obedece. Era tudo o que o comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, gostaria de fazer para marcar a sua passagem pela liderança da Força. Nomeou para o poderoso Comando Militar do Sul o general de exército Edson Leal Pujol, que liderou as tropas brasileiras no Haiti e ocupava a Secretaria de Economia e Finanças.

A politização

A mudança foi divulgada no Informex nº 36, de 29 de outubro. O comandante Militar do Norte, general de exército Oswaldo Jesus Ferreira, foi para a chefia do Departamento de Engenharia e Construção. Para seu lugar, foi indicado o general de divisão Carlos Alberto Neiva Barcelos, que será promovido a quatro estrelas. O general de divisão César Leme Justo, chefe do Centro de Informações do Exército, foi para o Comando Militar do Planalto. O general de brigada Ubiratan Poty, chefe de estado-maior do Comando de Militar da Amazônia, assumira o CIE e será promovido a general de divisão. Na mudança, os generais de brigada Otávio Santana do Rego Barros, Gláucio Lucas Alves, Luiz Carlos Pereira, Ângelo Kawakami, Joarez Alves Pereira e Marcelo Eschiletti Caldas Rodrigues também estão sendo promovidos a general de divisão.

Em ofício ao presidente da Comissão de Relações Exteriores, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) havia requerido informações sobre a palestra do general Mourão. Na resposta, Rebelo politizou a mudança ao afirmar que havia determinado ao Comando do Exército que tomasse “providências, com a brevidade e o rigor que o caso requer”. Com a presidente Dilma Rousseff empenhada em barrar as articulações da oposição para aprovar seu impeachment no Congresso, Rebelo foi nomeado ministro da Defesa para ser um esteio governista nas Forças Armadas, como foi ao presidir a Câmara e engavetar os pedidos de afastamento do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva na crise do mensalão. O problema do seu “dispositivo militar”, porém, é a caixa de costura.

 

 







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